
Tendo o privilégio de estar desde meados de Julho (após o fim dos exames) e até inícios de Setembro por terras do Uncle Sam, nada como olhar à distância para o pequeno Portugal e tentar anotar algumas diferenças, para o melhor e para o pior.
Dado que estou aqui de férias (o mesmo não posso dizer da menina, que enviaram para aqui - sim, aqui mesmo onde um rapazinho Coreano se passou em Abril e mandou 32 pessoas desta para melhor - 'it's a small world indeed' - durante 3 meses para elaborar uma parte específica da tese), o que vejo é obviamente 'tainted' pela lente do lazer. Mas algumas coisas saltam à vista.
Em primeiro lugar, a prestabilidade dos Americanos. Tal como já tinha visto nalguns países do Centro da Europa com uma imagem tradicionalmente "fria" (refiro-me também à minha estimada Alemanha, mas não só), os nativos fazem grandes sacrifícios para satisfazer a necessidade de um estrangeiro que pede uma indicação - desde pegar num telemóvel e fazer uma chamada para pedir a indicação exacta a alguém ou oferecer uma boleia e efectuar um desvio de percurso para levar o "estranho" ao destino, até alterar de forma significativa um roteiro pedestre, acompanhando o "estranho", para oferecer a indicação a partir de um lugar onde esta seja mais fácil de memorizar. E mesmo - isto no Canadá, mas mesmo assim pasme-se - desviar o percurso do autocarro citadino, perto da meia-noite, para levar os dois tugas (únicos passageiros, mas mesmo assim) ao hotel onde era suposto ficarem. Milhas (americanas) de distância do Português desconfiado que evita estranhos porque se calhar lhe vão pedir alguma coisa, ou quem sabe chatear-lhe a cabeça a perguntar onde fica sabe-se lá o quê - melhor fazer que não se ouve o pedido e ir para casa depressa ver o futebol e olhar para o umbigo. América 20 - Portugal 0.
Segundo ponto favorável, as zonas verdes. Mesmo numa cidade como Nova Iorque - que é suja, barulhenta, caótica e cheia de ratinhos a calcorrear as ruas e baratas a percorrer as casas, mas que mesmo assim é imperdível para visitar, quer pelos museus quer pela atmosfera - os espaços verdes abundam. Nem falo no gigante - e belo - Central Park: tenho de admitir que a quantidade de árvores no 'Upper East' e no 'Upper West', e mesmo em 'Lower Manhattan', me surpreendeu. E aos fins-de-semana - refiro-me agora à Virginia - inúmeros passeios a pé pelos trilhos das montanhas, quer por parte dos estudantes quer do "cidadão comum". Claro que é uma das muitas contradições deste país o facto de contribuirem como contribuem para a poluição mundial (o facto de não haver quase ninguém sem automóvel próprio é certamente um factor importante) e depois precisarem de estar tão perto da "natureza" - mas confesso que fiquei mais optimista (talvez seja ingenuidade...) quanto a essa situação depois de ver que os tempos livres não são passados dentro de um shopping, mas sim em contacto directo, ao ar livre e em convívio, com o mundo que os rodeia - e mais uma vez vêm-me à cabeça os países do "Centro e Norte da Europa", e apetece-me afirmar que o grau de desenvolvimento de um povo é sempre directamente proporcional à sua necessidade de estar em contacto com o "ambiente" - mesmo sendo este termo uma palavra muito abrangente.
A forma como se conduz, é, numa palavra, civilizada ao extremo. Sobre este ponto nem digo mais nada.
Quanto à comida, muitos, imensos, enormes pontos para os Americanos: Blacksburg (de onde escrevo e onde fica o Virginia Tech) é uma cidade universitária, mas tem menos de 40 000 habitantes - portanto pouco mais do que Espinho. Contudo, há restaurantes para todos os gostos: Indianos, Tailandeses, Franceses, Crioulos, Chineses obviamente, Italianos, Japoneses, Mexicanos, Texanos, vegetarianos de todos os tipos e com imensa variedade de pratos - a lista de restaurantes é longa... Por cerca de 15 dólares (já incluindo a 'tip'), e muitas vezes por menos, come-se fantasticamente bem, quer em termos de qualidade e variedade, quer de quantidade. Nova Iorque está também acima de qualquer escala (talvez ao lado de Berlim, que é, por uma conjunção de bastantes factores, a minha "cidade preferida"). "O acompanhamento é batatas fritas com arroz" passou a soar-me - agora mais ainda - a algo terceiro-mundista. Se calhar eu é que era um ignorante isolado, mas nunca mais na vida direi piadas McDonald's acerca dos Americanos...
Por último, e confessando que tudo isto são apenas algumas impressões aleatórias que fui recebendo nas últimas semanas, a liberdade de expressão. Escrevendo daqui, choca-me mais ainda o que aconteceu com aquela rapariga de um posto médico daí do Norte, que perdeu o emprego porque tinham "vandalizado o cartaz do Ministro da Saúde" e ela não o retirou imediatamente (confesso que já não consigo relatar o caso com toda a exactidão) e foi considerada "traidora" (a palavra não era esta, mas ia no mesmo sentido...). Ou o nosso Primeiro-que-limpa-o-texto-da-wikipedia, acerca de quem um professor disse algo que não devia e que por isso está agora com um processo... Aqui, temos gente como o Jon Stewart a publicar coisas como isto
http://www.amazon.com/Daily-Show-Stewart-Presents-America/dp/0446532681 , que é um livro cheio de uma deliciosa e inteligente irreverência, e 'getting away with it'. E há imensos exemplos da liberdade de expressão Americana. Assim de repente, veio-me à cabeça o Michael Moore. E, por outro lado, a proibição do "Hermanias" em 1987 por causa das famigeradas entrevistas históricas. Foi há 20 anos, certo - mas se calhar as coisas não mudaram assim tanto... Ou a censura (é a palavra) do governo ao "Evangelho Segundo Jesus Cristo", em 1991.
É claro que me choca também o aqui poder-se comprar uma arma como se compra uma revista; como me choca o facto de nos estados daqui - Virginia - para o Sul, ainda há pouco mais de 40 anos os Negros terem de ir na parte de trás dos autocarros e terem casas de banho públicas que lhes eram especialmente destinadas; assim como me choca o fundamentalismo religioso que grassa nesses estados (o imenso movimento que visa instaurar o ensino do Creacionismo nas escolas secundárias é algo que não consigo engolir de forma alguma).
E, sobretudo - e mesmo nos estados de 'New England', que sempre me fascinaram (o combate à escravatura já no século XIX, a quantidade de grandes escritores que a zona produziu e o número de universidades de topo a nível mundial são alguns dos motivos) e que explorei um pouco também - , senti a falta de mais de 2 000 anos de História. E talvez seja

esse o principal motivo (juntamente com algo que paira no ar e que é eu sentir que há algo de nem sempre muito saudável na imensa mistura de povos que por aqui se verifica - digo isto por verificar que eles não estão bem integrados uns com os outros e que falta um certo "carácter de unicidade" a este país) para eu apesar de tudo me identificar mais com a Europa.
Mas, apesar das contradições e do muito mais que eu poderia certamente absorver se estivesse por cá durante muito mais tempo, isto não é assim tão mau...