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O Intelectual ?

Look for the ridiculous in everything and you will find it...

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Nome: Jorge
Localização: Lisboa, Portugal

E o mais importante continua a ser o AMOR

sábado, 18 de Agosto de 2007

Tentativa de crónica a partir de terras Americanas

Tendo o privilégio de estar desde meados de Julho (após o fim dos exames) e até inícios de Setembro por terras do Uncle Sam, nada como olhar à distância para o pequeno Portugal e tentar anotar algumas diferenças, para o melhor e para o pior.

Dado que estou aqui de férias (o mesmo não posso dizer da menina, que enviaram para aqui - sim, aqui mesmo onde um rapazinho Coreano se passou em Abril e mandou 32 pessoas desta para melhor - 'it's a small world indeed' - durante 3 meses para elaborar uma parte específica da tese), o que vejo é obviamente 'tainted' pela lente do lazer. Mas algumas coisas saltam à vista.

Em primeiro lugar, a prestabilidade dos Americanos. Tal como já tinha visto nalguns países do Centro da Europa com uma imagem tradicionalmente "fria" (refiro-me também à minha estimada Alemanha, mas não só), os nativos fazem grandes sacrifícios para satisfazer a necessidade de um estrangeiro que pede uma indicação - desde pegar num telemóvel e fazer uma chamada para pedir a indicação exacta a alguém ou oferecer uma boleia e efectuar um desvio de percurso para levar o "estranho" ao destino, até alterar de forma significativa um roteiro pedestre, acompanhando o "estranho", para oferecer a indicação a partir de um lugar onde esta seja mais fácil de memorizar. E mesmo - isto no Canadá, mas mesmo assim pasme-se - desviar o percurso do autocarro citadino, perto da meia-noite, para levar os dois tugas (únicos passageiros, mas mesmo assim) ao hotel onde era suposto ficarem. Milhas (americanas) de distância do Português desconfiado que evita estranhos porque se calhar lhe vão pedir alguma coisa, ou quem sabe chatear-lhe a cabeça a perguntar onde fica sabe-se lá o quê - melhor fazer que não se ouve o pedido e ir para casa depressa ver o futebol e olhar para o umbigo. América 20 - Portugal 0.

Segundo ponto favorável, as zonas verdes. Mesmo numa cidade como Nova Iorque - que é suja, barulhenta, caótica e cheia de ratinhos a calcorrear as ruas e baratas a percorrer as casas, mas que mesmo assim é imperdível para visitar, quer pelos museus quer pela atmosfera - os espaços verdes abundam. Nem falo no gigante - e belo - Central Park: tenho de admitir que a quantidade de árvores no 'Upper East' e no 'Upper West', e mesmo em 'Lower Manhattan', me surpreendeu. E aos fins-de-semana - refiro-me agora à Virginia - inúmeros passeios a pé pelos trilhos das montanhas, quer por parte dos estudantes quer do "cidadão comum". Claro que é uma das muitas contradições deste país o facto de contribuirem como contribuem para a poluição mundial (o facto de não haver quase ninguém sem automóvel próprio é certamente um factor importante) e depois precisarem de estar tão perto da "natureza" - mas confesso que fiquei mais optimista (talvez seja ingenuidade...) quanto a essa situação depois de ver que os tempos livres não são passados dentro de um shopping, mas sim em contacto directo, ao ar livre e em convívio, com o mundo que os rodeia - e mais uma vez vêm-me à cabeça os países do "Centro e Norte da Europa", e apetece-me afirmar que o grau de desenvolvimento de um povo é sempre directamente proporcional à sua necessidade de estar em contacto com o "ambiente" - mesmo sendo este termo uma palavra muito abrangente.

A forma como se conduz, é, numa palavra, civilizada ao extremo. Sobre este ponto nem digo mais nada.

Quanto à comida, muitos, imensos, enormes pontos para os Americanos: Blacksburg (de onde escrevo e onde fica o Virginia Tech) é uma cidade universitária, mas tem menos de 40 000 habitantes - portanto pouco mais do que Espinho. Contudo, há restaurantes para todos os gostos: Indianos, Tailandeses, Franceses, Crioulos, Chineses obviamente, Italianos, Japoneses, Mexicanos, Texanos, vegetarianos de todos os tipos e com imensa variedade de pratos - a lista de restaurantes é longa... Por cerca de 15 dólares (já incluindo a 'tip'), e muitas vezes por menos, come-se fantasticamente bem, quer em termos de qualidade e variedade, quer de quantidade. Nova Iorque está também acima de qualquer escala (talvez ao lado de Berlim, que é, por uma conjunção de bastantes factores, a minha "cidade preferida"). "O acompanhamento é batatas fritas com arroz" passou a soar-me - agora mais ainda - a algo terceiro-mundista. Se calhar eu é que era um ignorante isolado, mas nunca mais na vida direi piadas McDonald's acerca dos Americanos...

Por último, e confessando que tudo isto são apenas algumas impressões aleatórias que fui recebendo nas últimas semanas, a liberdade de expressão. Escrevendo daqui, choca-me mais ainda o que aconteceu com aquela rapariga de um posto médico daí do Norte, que perdeu o emprego porque tinham "vandalizado o cartaz do Ministro da Saúde" e ela não o retirou imediatamente (confesso que já não consigo relatar o caso com toda a exactidão) e foi considerada "traidora" (a palavra não era esta, mas ia no mesmo sentido...). Ou o nosso Primeiro-que-limpa-o-texto-da-wikipedia, acerca de quem um professor disse algo que não devia e que por isso está agora com um processo... Aqui, temos gente como o Jon Stewart a publicar coisas como isto http://www.amazon.com/Daily-Show-Stewart-Presents-America/dp/0446532681 , que é um livro cheio de uma deliciosa e inteligente irreverência, e 'getting away with it'. E há imensos exemplos da liberdade de expressão Americana. Assim de repente, veio-me à cabeça o Michael Moore. E, por outro lado, a proibição do "Hermanias" em 1987 por causa das famigeradas entrevistas históricas. Foi há 20 anos, certo - mas se calhar as coisas não mudaram assim tanto... Ou a censura (é a palavra) do governo ao "Evangelho Segundo Jesus Cristo", em 1991.

É claro que me choca também o aqui poder-se comprar uma arma como se compra uma revista; como me choca o facto de nos estados daqui - Virginia - para o Sul, ainda há pouco mais de 40 anos os Negros terem de ir na parte de trás dos autocarros e terem casas de banho públicas que lhes eram especialmente destinadas; assim como me choca o fundamentalismo religioso que grassa nesses estados (o imenso movimento que visa instaurar o ensino do Creacionismo nas escolas secundárias é algo que não consigo engolir de forma alguma).

E, sobretudo - e mesmo nos estados de 'New England', que sempre me fascinaram (o combate à escravatura já no século XIX, a quantidade de grandes escritores que a zona produziu e o número de universidades de topo a nível mundial são alguns dos motivos) e que explorei um pouco também - , senti a falta de mais de 2 000 anos de História. E talvez seja esse o principal motivo (juntamente com algo que paira no ar e que é eu sentir que há algo de nem sempre muito saudável na imensa mistura de povos que por aqui se verifica - digo isto por verificar que eles não estão bem integrados uns com os outros e que falta um certo "carácter de unicidade" a este país) para eu apesar de tudo me identificar mais com a Europa.

Mas, apesar das contradições e do muito mais que eu poderia certamente absorver se estivesse por cá durante muito mais tempo, isto não é assim tão mau...

4 Comments:

Blogger Jorge said...

Olá Eduardo, how're ya ? :) Antes de mais, obrigado pelo teu elaborado post, para contrariar a morte deste blog.

De facto, a imagem que tenho dos EU, aproxima-se mais da que a Raquel descreve. Sinceramente o american beauty continua a ser um filme de referência para mim neste aspecto. Há uma especie de caos controlado, mas pronto a explodir, a hipocrisia está sempre presente.

Em relação à comida, penso que elogias o facto de eles terem restaurantes de várias nacionalidades e não à comida americana em si... apesar de tudo, gostos são relativos e o que agrada a milhões de americanos pode perfeitamente agradar a milhares de portugueses :)

Desde há uns anos para cá que tenho uma imagem negativa dos EUA e que não tem vindo a melhorar (pelo contrário), devido a vários factores (hi bush & co).
Admiro (não propriamente pela positiva) o orgulho que eles têm pelo seu país e a forma como olham para o resto do mundo... "eles até podem ser maus, mas o resto é certamente pior". A propósito disto, lembro-me de uns americanos que vieram à "minha" empresa (na altura) fazer uma apresentação de um produto. Houve alguém que fez um comentário inocente anti-bush e todos os convivas americanos olharam para essa pessoa prontos a cuspir fogo... no final, em conversa e em amena cavaqueira, um deles disse que provavelmente todos eles concordavam com o comentário, o problema foi o mesmo ter vindo de um europeu... :)

Não acredito no sonho americano, mas acredito em vários pesadelos americanos...

Segunda-feira, 20 Agosto, 2007  
Blogger Eduardo said...

Viva! :-)

Antes de mais, gostava de deixar claro que a minha intenção principal ao escrever o post foi apenas afirmar aquilo com que o concluí: "isto não é assim tão mau"... Para quem apontava apenas filmes clássicos :o) , o Jazz e um bom número de escritores fabulosos como as grandes qualidades deste país, tive umas quantas surpresas agradáveis. Depois, conforme afirmei, foram impressões aleatórias, algo como um "rascunho de viagem". Eu também sou Português, e, apesar de poder fazer muitas críticas ao nosso país (acho que a crítica/auto-crítica é sempre o primeiro passo para se tentarem melhorar as coisas), longe de mim aqueles comentários derrotistas (que, paradoxalmente ou não, vêm normalmente de pessoas incapazes de fazerem uma "crítica" concreta ou de tentarem mudar as coisas) como "não prestamos para nada" ou "isto nunca irá a lado nenhum".

Agora, dois ou três pontos concretos...

Quanto à comida, já não se trata de "primeiras impressões"... Se estiveste também em Nova Iorque, Raquel, acho que estaremos de acordo em que a VARIEDADE gastronómica nessa cidade é impressionante. E sim, Jorge, conforme escreveste e eu tinha mencionado, era disso que eu falava :-) - variedade de pratos principais, de acompanhamentos, de saladas, de temperos, de imaginação. E refira-se que, num país construído a partir de imigração, não espero muita coisa que seja realmente "original", a não ser aquilo que resulta dessa imensa mistura que sempre caracterizou este país. (Veja-se, a propósito então de filmes, Frank Capra, Billy Wilder, Elia Kazan, William Wyler, Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Charlie Chaplin e William Fox, para referir apenas alguns europeus que me vieram à cabeça e que ajudaram a erguer Hollywood; quanto ao Jazz, nem comento; em relação a escritores, houve e há alguns 'true American originals', o que quer que isso possa significar, como Twain e como o grande, sulista, Faulkner ou, mais recentemente, Thomas Pynchon - mas é curioso que até dois grandes fundadores da "alma literária e filosófica Americana" - Emerson e Whitman - o fizeram por influência directa do Romantismo Europeu e de Filósofos Alemães - caso de Emerson - e por exortação consciente, por parte do mesmo Emerson, ao surgimento de um "poeta nacional Americano" - caso de Whitman.). Quanto à Carolina do Norte, Raquel, não conheço e não sei onde estiveste - mas eu estou nos E.U.A. há um mês e já estive (viajei de 'Greyhound Bus', por etapas), para além de Blacksburg (maior parte do tempo) e Nova Iorque, em Washington, Richmond, Boston, Harvard, Buffalo, Niagara, Toronto (é Canadá mas encaixa na "variedade"), e reafirmo que a variedade e a POSSIBILIDADE de escolha são imensas.

Depois, as "zonas verdes"... Serras, planícies, florestas, zonas ou mais ou menos "inexploradas", todos os países têm... Eu referia-me a zonas verdes DENTRO das grandes cidades. E a quantidade de árvores em Nova Iorque surpreendeu-me. Nas "grandes cidades" Portuguesas, acho que a imobiliária ganha sempre a melhor. Tenho má memória ou há uns anos falava-se em dar cabo de uma área importante do Parque da Cidade para construir não sei que complexo habitacional?... Provavelmente, mais um "condomínio fechado" como todos os outros condomínios fechados (nada como fazermos o que todos os outros fazem), em vez de gastarem esse dinheiro na compra/reabilitação das casas antigas que polulam pela Baixa e que, bem restauradas, dariam excelentes habitações. (Se eu ficasse pelo Porto, bem gostaria de uma dessas.) Pelo que vi, garanto que os Americanos queimavam vivo :o) alguém que sugerisse destruir um m2 que fosse do Central Park. E acho muito bem. E falei também na mentalidade das pessoas. Isso talvez esteja a mudar um pouco nos Portugueses, mas ainda noto uma diferença clara entre a necessidade de contacto com o ambiente que as pessoas daqui têm com o "é domingo à tarde vamos enfiar-nos no shopping" de uns quantos milhares de Portugueses. Quanto a haver também essa "necessidade do verde" na Alemanha, pois claro que há, e penso que mais ainda do que aqui... Era um dos tais países do "Centro e Norte da Europa" a que eu me referia como tendo esse (na minha opinião) "indicador de desenvolvimento". E outra coisa que acho que salta à vista (e ao olfacto, e ao tacto quando nos cortamos) é a lixeira horrível que se vê nas tais "serras Portuguesas" depois de um piquenique tuga... Há excepções. Mas, em geral, tenho vergonha do estado em que na maior parte das vezes se encontram os nossos "espaços verdes". Ou da quantidade de latas e garrafas que se vêm mesmo nos "parques citadinos". E nas estradas. E nos caminhos. Enfim, vocês sabem do que estou a falar.

Quanto à simpatia, bem, se calhar é aqui que tenho uma opinião mais pessoal e subjectiva... Posso chocar algumas pessoas, mas nem sempre acho os Portugueses PARTICULARMENTE simpáticos. Em relação a "turistas" e "estudantes" (ou mesmo a "imigrantes" que por terras lusas ficam menos ou mais anos), discordo de que a opinião geral seja a desse "calor humano" todo... Aliás, no caso desses "imigrantes" (se calhar soa melhor "músicos ou professores/tradutores a residir em Portugal durante uns anos"), por vezes a opinião é até contrária a isso. E posso dar o meu exemplo pessoal: durante uns 7 anos andei de autocarro no Porto, quase todos os dias; dizer que os motoristas são, REGRA GERAL, pouco simpáticos, é no mínimo um 'understatement'.

Hipocrisia, certamente que a há. Estava incluída nas (algumas) contradições que mais para o fim referi. Mas... Em Portugal não há hipocrisia?... Há sim. Tanta e tão enraizada que parece que alguns se esquecem dela e só apontam o dedo aos outros países quando o defeito "hipocrisia" é mencionado. Hipocrisia, entre outras, do tipo Católico. (Escrevi "hipocrisia Católica" e não "hipocrisia Cristã"...)

Posto tudo isto, e mesmo havendo muitos mais tópicos interessantes acerca dos quais poderíamos conversar dentro deste tema... Quando eu disse "há algo pouco saudável que paira no ar", referia-me exactamente a esse "caos controlado pronto a explodir" que tu, Jorge, referiste. Algo não está bem neste país. Sente-se. E concluo voltando a dizer que sou Português. E que me identifico muito mais com a Europa.

Simplesmente... "Isto não é tão mau como eu pensava"... :-)

Segunda-feira, 20 Agosto, 2007  
Blogger Jorge said...

Tens toda a razão em vários pontos que referes. A hipocrisia há em todo o lado e nós falamos muito dos americanos, mas acabamos (PT e CE) por importar muito do que eles produzem, não só a nível de produtos como a nível sócio-cultural.
O problema com a hipocrisia americana é a extensão que afecta... a hipocrisia nacional é tão falsa e repugnante como a americana, mas não prejudica tanta gente nem tem voz para sair do nosso pequeno triângulo :)

Em relação à simpatia, depende muito da zona do país... em lx, por exemplo, a frieza é inquestionável, cada vez mais as pessoas fecham-se nos seus pequenos mundos... E em relação aos imigrantes, a simpatia é virtual e aqui é onde se nota muito da nossa hipocrisia. Estamos de braços abertos para receber toda a gente, mas desde que não seja em nossa casa e que não se intrometam nas nossas vidinhas.

Quando aponto críticas à sociedade americana, não é em favor da sociedade portuguesa, são simplesmente críticas que observo... sem nunca me esquecer que estou num país com o qual não me identifico.
Apesar de tudo e por enquanto, a minha escolha continua a ser esta :)

Segunda-feira, 20 Agosto, 2007  

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